Liquidez, competição, desafios e o futuro do mercado de capitais brasileiro

Após quase duas décadas de domínio de uma única bolsa, o mercado de capitais brasileiro pode entrar em uma nova fase com o avanço de projetos concorrentes à B3, que prometem introduzir competição em um setor historicamente concentrado; mais do que uma questão regulatória, o debate passa a ser estratégico, ao considerar como essa disputa pode alterar custos, ampliar o acesso a produtos e influenciar a dinâmica de liquidez no país.
Foto de perfil do autor
PorGorila - 16/03/2026
5 min de leitura

O Brasil da Bolsa

A estrutura do mercado de capitais brasileiro é resultado direto de um processo de consolidação institucional e tecnológica ocorrido ao longo das últimas décadas. Antes da atual B3, o país operava com múltiplas bolsas regionais.

A virada começou a partir do fim dos anos 1960, quando mudanças regulatórias, modernização financeira e crises de mercado aceleraram a reorganização do setor. Nessa incerteza econômica, o dinamismo industrial e financeiro de São Paulo cravou definitivamente a Bolsa de Valores de São Paulo como o novo centro do mercado de capitais brasileiro.

Nas décadas seguintes, tecnologia, escala e regulação convergiram o sistema para um processo inevitável de integração. A unificação entre mercados de ações, derivativos e infraestrutura de liquidação culminou na formação da B3. O Brasil passou, então, a operar com uma única grande bolsa, modelo acertado em um período de transição, mas claramente limitado e que agora se mostra preparado para sair da adolescência e entrar em sua fase adulta.

Os novos capítulos do mercado de investimentos brasileiro não serão simples. Como em todo processo de amadurecimento, o caminho esconde desafios, escolhas e renúncias. Cabe aos reguladores, intermediários e investidores entenderem e respeitarem cada uma das etapas dessa jornada.

O Brasil das Bolsas

Projetos em desenvolvimento, como a Base Exchange, e iniciativas baseadas em sistemas alternativos de negociação indicam que o país pode estar entrando em uma nova fase na organização do seu mercado financeiro.

A proposta desses novos operadores é relativamente clara: introduzir competição em um segmento historicamente concentrado, com potencial para reduzir custos de negociação, ampliar alternativas de execução de ordens e estimular inovação tecnológica. 

Entre os novos players que buscam ampliar a concorrência nessa nova conjuntura está a Base Exchange, projeto apoiado pelo fundo soberano Mubadala Investment Company e já aprovado pela CVM e também pelo Banco Central. “Quando uma nova bolsa desafia o incumbente, o que acontece é a ampliação do mercado. Por quê? Porque você passa a ter um mercado mais eficiente, com preços mais justos, os spreads diminuem, os investidores estrangeiros são beneficiados, assim como investidores nacionais, com redução de custos, aumento de rapidez, redução da latência e melhor atendimento, além, logicamente, do crescimento na opção de produtos.”, explicou Claudio Pracownik, o CEO da Base, que conversou de forma exclusiva com o Gorila Wealth Trends. Ele também revelou que a fase de testes do Banco Central é iminente e que ele espera o primeiro trading ainda esse ano. “É importante notar e enfatizar que tanto o Banco Central como a CVM são favoráveis à concorrência e têm efetuado o seu papel de reguladores com muito escrutínio, discernimento, criando um patamar alto para a aprovação dessas novas infraestruturas de mercado.”, comemorou o CEO da futura nova bolsa do mercado brasileiro.

Entre eficiência e estabilidade

A criação de um novo ambiente de negociação demanda a construção de uma infraestrutura robusta, sob a supervisão de órgãos reguladores. Para Felipe Russo, Diretor Presidente da Associação Brasileira dos Consultores de Valores Mobiliários (ABCVM), o mercado brasileiro já se encontra sólido o suficiente para dar esse novo passo. “O Brasil vive o monopólio da B3 desde a concentração de operações de bolsa no início dos anos 2000. A chegada de novos participantes é bem-vinda para promover a concorrência, desde que as novas plataformas entreguem de fato o que prometeram (tarifas mais justas, inovação, eficiência operacional).”, ponderou.

O fim da concentração das operações de mercado no País é um cenário já antevisto pelos assessores de investimento. A mudança é tratada por eles com otimismo. Em qualquer tipo de contexto, a capacidade analítica é a principal ferramenta para uma boa alocação, como aponta o Presidente da Associação Brasileira dos Assessores de Investimento, Diego Ramiro.  “Se passarmos a ter múltiplos ambientes de negociação, a curadoria de produtos, a análise de liquidez e a qualidade da execução passam a ser fatores ainda mais importantes. O assessor deixa de ser apenas um intermediário e passa a atuar cada vez mais como um profissional de inteligência de mercado, ajudando o investidor a navegar em um ambiente mais complexo”.

Dividir para somar?

Embora a concorrência entre bolsas possa pressionar custos e estimular inovação, a liquidez permanece como o principal ponto de atenção. O mercado acionário brasileiro ainda é relativamente concentrado e conta com pouco mais de 400 empresas listadas na B3 (NASDAQ e NYSE concentram mais de 6 mil companhias americanas),  um universo limitado para o tamanho da economia do país. 

Nesse contexto, existe o medo de que a criação de novos ambientes de negociação cause, inicialmente, uma divisão no fluxo de ordens e, consequentemente, uma redução na profundidade do mercado em determinados ativos. “Quando surgem novos ambientes de negociação, a liquidez pode inicialmente se dividir entre diferentes plataformas. Porém, em mercados mais maduros isso costuma ser resolvido por meio de tecnologia de roteamento de ordens arbitragem entre plataformas, garantindo que o investidor tenha acesso ao melhor preço disponível. Portanto, é um desafio inicial, mas não necessariamente um problema estrutural.”, explicou Diego Ramiro, Presidente da ABAI.

“Essa questão da fragmentação da liquidez é uma mentira que, repetida várias vezes, acabou se tornando verdade para algumas pessoas. Esse risco não existe. As bolsas não são o mercado. As bolsas são infraestruturas que operam para o mercado, o próprio nome diz. É difícil imaginar que possa existir competição dos investidores.”, argumentou Claudio Pracownik, CEO da BASE Exchange, antes de citar os exemplos de mercados consolidados internacionalmente.

Em um ambiente com mais de uma plataforma de negociação, existe o risco de que ordens acabem direcionadas para diferentes mercados, exigindo sistemas capazes de comparar preços e otimizar execução. “O volume ainda é modesto em comparação com mercados desenvolvidos e alocação em renda variável apresenta uma característica mais tática do que estrutural de longo prazo nas carteiras dos investidores.”, colocou Felipe Russo, presidente da ABCVM, apontando ainda que diferenças momentâneas entre plataformas podem abrir espaço para estratégias de arbitragem e novas abordagens de gestão de portfólio.

Um mercado ainda pequeno para um Brasil gigante

Se esse movimento se consolidar, o impacto mais relevante talvez não esteja apenas na existência de uma ou mais novas bolsas, mas na possibilidade de um mercado de capitais mais dinâmico. Para um país que já esteve entre as 10 maiores economias do mundo, a introdução de concorrência pode funcionar como um catalisador para expansão, inovação e maior acesso ao investimento.

Se no passado o movimento foi de concentração para ganhar eficiência e escala, o momento atual sugere o início de um ciclo diferente, mais diverso, amplo e acessível. Assim como nas transformações anteriores, não se trata apenas da criação de uma nova bolsa, mas de uma possível reconfiguração do ecossistema do mercado de capitais brasileiro.

Compartilhe

Vá direto ao assunto

Inscreva-se na nossa newsletter e receba nossa curadoria com as últimas notícias, inovações e tendências que estão moldando o mercado de investimentos no Brasil.
Ao enviar o formulário, você declara que conhece os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade.

Compartilhe

Vá direto ao assunto

Inscreva-se na nossa newsletter e receba nossa curadoria com as últimas notícias, inovações e tendências que estão moldando o mercado de investimentos no Brasil.
Ao enviar o formulário, você declara que conhece os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade.