O papel das redes sociais e influencers na distribuição de investimentos
Creators de finanças estão mudando a forma como os brasileiros aprendem, conversam e investem dinheiro
Nos últimos anos, os chamados finfluencers se consolidaram como atores relevantes no ecossistema do mercado financeiro, ao traduzirem temas complexos em uma linguagem mais acessível e próxima do dia a dia. O relatório Finfluencer 10 da ANBIMA aponta que o número de influenciadores dedicados a falar de finanças e investimentos nas redes sociais chegou a 904 no segundo semestre de 2025, um avanço de 12,6% em relação ao semestre anterior.
Esse crescimento aponta para uma comunidade de 310,7 milhões de seguidores, um crescimento de 300% nos últimos cinco anos, sustentado por consistência na produção de conteúdo. O total de publicações chegou a 468 mil conteúdos nas redes sociais no segundo semestre de 2025, quase o triplo do volume publicado em 2020, de 160 mil posts.
Embora não atuem diretamente na distribuição de produtos, esses criadores exercem influência real sobre decisões de investimento, especialmente entre os mais jovens. Segundo os dados do Raio X do Investidor, também da ANBIMA, 6% dos brasileiros afirmam considerar a opinião de influenciadores antes de investir — número que chega a 11% entre a geração Z.
Educação financeira e nova porta de entrada
Esse movimento tem impacto direto na educação financeira. Investidores chegam mais informados às conversas com assessores e instituições, mais abertos a discutir estratégias, riscos e oportunidades. Como destaca Amanda Brum, CMO da ANBIMA, “quanto mais informação tiver o cliente, maiores as chances de ele tomar decisões mais conscientes e condizentes com seu perfil de risco e objetivos de vida”.
Para muitos, os influenciadores se tornaram a porta de entrada para o universo financeiro, especialmente em um contexto em que os produtos se tornam cada vez mais sofisticados e a educação financeira ainda é pouco disseminada no Brasil. Nesse cenário, os creators ampliam o acesso à informação e ajudam a formar novos investidores. Como observa Paulo Feldmann, professor da FIA Business School, “o mercado financeiro ficou tão complexo que hoje você tem que ter especialistas não ligados a banco para te orientar”.
Impactos na distribuição e no relacionamento com investidores
Esse avanço também traz implicações relevantes para o modelo tradicional de distribuição de investimentos. Com investidores mais informados — e muitas vezes já influenciados antes mesmo do contato com instituições — plataformas, gestores e assessores passam a atuar em um ambiente mais competitivo e transparente. A tendência é que o relacionamento evolua para um modelo mais consultivo, baseado em confiança, aprofundamento técnico e capacidade de traduzir estratégias de forma clara.
Esse fenômeno também se reflete em trajetórias como a do economista César Esperandio, que, após carreira no mercado financeiro, passou a produzir conteúdo educativo nas redes sociais com o projeto Econoweek. Hoje, o canal reúne centenas de milhares de seguidores e exemplifica um movimento crescente: a profissionalização dos influenciadores, que passam a estruturar sua atuação como negócios, com equipe, produção contínua e diferentes formas de monetização. Para ele, “encarar isso como uma empresa, de fato, é fundamental”.
Desafios, transparência e evolução do mercado
Ao mesmo tempo, o crescimento desse ecossistema amplia a responsabilidade desses criadores. Como destaca Esperandio, “as pessoas realmente são influenciadas e repetem comportamentos”, o que exige ainda mais cuidado na forma de comunicar e orientar o público.
À medida que esse ambiente evolui, também surgem novos desafios. Parcerias entre influenciadores e instituições financeiras podem ampliar o alcance da informação, mas também levantam potenciais conflitos de interesse e reforçam a necessidade de transparência.
O avanço dos conteúdos patrocinados é outro ponto de atenção. Ao mesmo tempo em que amplia o acesso à informação, também exige maior rigor técnico e clareza na comunicação. Nesse sentido, iniciativas como as da ANBIMA, que passou a indicar influenciadores com certificações do mercado, contribuem para fortalecer a qualidade do conteúdo disponível.
A tendência é de crescimento tanto no número de creators quanto na relevância desse canal dentro da jornada do investidor. “A educação financeira é um dos pilares para que esse ecossistema evolua de forma saudável”, destaca Amanda Brum.
Como em outros momentos do mercado, a própria dinâmica tende a favorecer os profissionais mais consistentes. Influenciadores que aliam transparência, qualidade de análise e responsabilidade devem ganhar espaço ao longo do tempo. Como resume Feldmann, “o próprio mercado vai perceber quem são os melhores e quem não são”.
O ambiente regulatório também evolui. Desde 2023, a ANBIMA estabelece diretrizes para a contratação de influenciadores por instituições financeiras, incluindo a verificação de certificações quando necessário. O objetivo é contribuir para uma comunicação mais qualificada com o investidor.
Em um mercado em transformação, as redes sociais deixaram de ser apenas um canal de comunicação e passaram a ocupar um papel ativo na formação de investidores, reforçando a importância de informação de qualidade, responsabilidade e visão de longo prazo.