A lição que o maior consolidador de consultorias do mundo trouxe ao Brasil

O modelo que levou a Focus a US$ 400 bilhões depende de dados bem estruturados. No Brasil, essa infraestrutura ainda está em construção.
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PorGorila - 27/04/2026
3 min de leitura

Adolf Ruediger tem 20 anos de experiência na construção de uma das maiores plataformas de gestão independente do mundo. Fundador da Focus Financial Partners — consolidadora americana que chegou a US$ 400 bilhões em ativos sob gestão antes de ser vendida por US$ 7,3 bilhões em 2023 —, ele veio pela primeira vez ao Brasil para o Fractal Summit, em São Paulo, e entre os pontos que levantou estava um erro que cometeu e não repetiria: manter os sistemas de CRM descentralizados nas firmas adquiridas. Se pudesse refazer a decisão, tornaria a migração para um sistema único obrigatória desde o primeiro dia.

A questão é de escala. Sem um sistema centralizado, firmas adquiridas continuam operando em silos — e uma plataforma que agrega dezenas delas perde a capacidade de monitorar padrões, comparar performance e identificar o que funciona. Foi o preço que a Focus pagou por manter os CRMs descentralizados.

Essa leitura ganha peso quando confrontada com o que Ruediger encontrou ao longo dos anos na Focus. Sua equipe realizou milhares de entrevistas com clientes de alta renda para entender o que determina a escolha de um consultor. Performance não aparecia nem entre os três primeiros fatores. O que aparecia, de forma recorrente, era confiança — a certeza de que alguém competente cuidaria do patrimônio enquanto o cliente se dedicava ao que realmente importava para ele. Logo depois, a tranquilidade de saber que a família estaria protegida caso algo acontecesse. Construir essa relação exige presença ao longo do tempo: saber quando o cliente tem um filho, vende uma empresa, recebe uma herança — eventos que redesenham o planejamento e que só se capturam com um relacionamento próximo.

No mesmo evento, Guilherme Assis, CEO do Gorila, e Rodrigo Takeuchi, CEO da Dashplan, discutiram os limites reais da tecnologia disponível para consultorias brasileiras — e chegaram a um diagnóstico próximo pelo lado da infraestrutura.

O ponto central de Assis foi o enriquecimento de dados. Consolidar posições de múltiplas custódias já é possível. O desafio está na etapa seguinte: transformar esses dados em informação efetivamente útil para o atendimento ao cliente. Isso depende da qualidade do que vem das plataformas — e é aí que o problema se instala.

“A quantidade de legado na ‘cozinha’ é grande e difícil de trabalhar”, disse Assis. O Gorila mantém conversas com XP, BTG e outras instituições sobre abertura de APIs, num processo que avança conforme o ritmo e a complexidade tecnológica de cada uma. O Open Finance para investimentos, nesse cenário, ainda não entrega resultados concretos no curto prazo. A IA ajuda no que já é acessível — mas não resolve o problema estrutural das custódias, que deve permanecer como desafio por um tempo.

Para Takeuchi, a inteligência artificial vai progressivamente transformar a habilidade técnica em pré-requisito, não em diferencial. O que ela não entrega é julgamento: a leitura do momento de vida do cliente, a capacidade de conectar informações aparentemente corriqueiras ao que significam para o planejamento patrimonial e sucessório. “O resultado do trabalho está conectado com a vida do cliente”, disse.

O que Ruediger descreveu a partir da experiência americana e o que Assis e Takeuchi mapearam a partir da realidade brasileira apontam para o mesmo gargalo: dados. Bem estruturados, enriquecidos e centralizados, eles são a base sobre a qual se constrói o tipo de relação que, segundo o fundador da Focus, é o verdadeiro ativo de uma consultoria. No Brasil, essa base ainda está em construção — e o ritmo depende, em boa medida, de decisões que estão fora do controle das próprias consultorias.

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