Open Investment faz 3 anos: uso cresce, mas mercado ainda busca caso de sucesso
Três anos depois de entrar em produção, o Open Investment já reúne dezenas de instituições certificadas e uso crescente das APIs de investimentos. O avanço, porém, ainda convive com uma pergunta que acompanha o projeto desde o lançamento: o que, de fato, foi construído sobre esses dados? E quanto disso já virou produto relevante para o cliente?
A resposta é menos simples do que os números de adoção sugerem. De um lado, bancos, fintechs e a própria governança do Open Finance apontam casos de consolidação patrimonial, ofertas personalizadas, apoio à gestão de carteira e uso de inteligência artificial. De outro, fontes que trabalham diretamente com dados de investimentos ainda vêem limitações de qualidade, diferenças entre instituições e poucos exemplos capazes de provar, em escala, todo o potencial prometido pelo modelo.
O escopo de investimentos do Open Finance, o Open Investment, entrou em produção em setembro de 2023. Hoje, segundo a Associação Open Finance Brasil, 38 organizações financeiras têm ao menos uma API de investimentos certificada, representando 66 marcas ou instituições. Cerca de dez organizações ainda poderiam aderir.
O crescimento do ecossistema também aparece nas chamadas feitas a essas interfaces. Mas, para dimensionar esse avanço, é preciso separar três métricas diferentes: instituições conectadas, consentimentos concedidos pelos clientes e chamadas às APIs.
O que são as APIs do Open Investment
As APIs (interfaces de programação de aplicações) são os canais padronizados usados para que uma instituição, com autorização do cliente, consulte dados mantidos em outra participante do Open Finance. No escopo de investimentos, existem cinco famílias em operação: renda fixa de crédito, fundos, títulos do Tesouro, renda variável e renda fixa bancária. É por essas interfaces que informações como posição, saldo e movimentações podem chegar ao banco, corretora, fintech ou agregador que recebeu o consentimento.
Uma chamada de API, portanto, não equivale a um novo investidor conectado. Ela representa uma consulta feita por um sistema àquela interface; o mesmo cliente pode gerar diversas chamadas ao longo do tempo. Da mesma forma, o número de consentimentos mede autorizações ativas no Open Finance como um todo e não deve ser lido como quantidade de usuários do Open Investment. Essa distinção ajuda a entender por que o forte crescimento técnico ainda pode coexistir com poucos produtos de investimento percebidos pelo público.
Segundo a Associação, o Open Finance superou 240 milhões de consentimentos ativos em julho de 2026, alta de 140% em 12 meses. Já as APIs de investimentos passaram, nos últimos seis meses, ao segundo lugar no ranking de consumo entre as principais APIs e registraram aumento superior a 24% desde janeiro deste ano.
A Associação afirma que os casos já reportados ao Banco Central incluem consolidadores de carteira, recomendações de diversificação e rebalanceamento, identificação de ativos mais rentáveis e alertas sobre recursos disponíveis ou aplicações próximas do vencimento. Segundo dados apresentados por Matheus Rauber, do Banco Central, no Fintouch 2025, os casos de gestão de investimentos via Open Finance movimentaram R$ 14 bilhões no primeiro semestre de 2025.
Ainda assim, a leitura de mercado é mais cautelosa. Jamile Leão, head de consultoria da Capgemini, afirma que o consumo das APIs de Open Investment cresceu de forma expressiva — de cerca de 1% das chamadas em 2024 para 17% atualmente, segundo os dados organizados pela consultoria —, mas avalia que esse aumento ainda não produziu um caso emblemático de uso.
“Eu não vi nenhum caso interessante ainda, mas você já está vendo o mercado se mexendo”, afirma. Na leitura da executiva, o Open Investment tem uma prova de resultado mais complexa do que outras frentes do Open Finance, como crédito, em que o impacto comercial pode aparecer de forma mais imediata.
A concentração do consumo também ajuda a explicar essa dinâmica. Segundo Jamile, aproximadamente 75% a 76% das chamadas de Open Investment estão ligadas à renda fixa. Caixa, Nubank, Mercado Pago, Itaú e Banco do Brasil concentram boa parte das chamadas monitoradas pela consultoria. O desenho, segundo ela, reproduz em alguma medida a própria composição do mercado brasileiro de investimentos, hoje fortemente concentrado em renda fixa.
Da consolidação à oferta personalizada
A aplicação mais visível continua sendo a agregação. Com o consentimento do cliente, uma instituição pode receber informações sobre posições mantidas em concorrentes e reuni-las em uma única tela. A partir daí, bancos e fintechs passam a ter uma visão mais ampla do patrimônio e podem usar o dado para sugerir produtos, avaliar concentração de risco ou iniciar uma conversa sobre alocação.
No Bradesco, por exemplo, o cliente já pode visualizar em um agregador investimentos mantidos em outras instituições, mesmo quando o banco não oferece o mesmo produto. Marcos Cavagnoli, diretor responsável pela frente de negócios de Open Finance do Bradesco, afirma que os primeiros anos foram marcados principalmente pela construção e pelo amadurecimento da infraestrutura.
“Acho que a gente passou esses três anos muito na construção da infraestrutura. De um tempo para cá, o cliente começou a sentir mais o benefício no dia a dia”, diz.
A lógica vai além de simplesmente mostrar a carteira. Com uma visão consolidada, o banco pode analisar o contexto financeiro do cliente e identificar, por exemplo, necessidade de liquidez ou alternativas de investimento. Cavagnoli cita o uso desses dados como insumo para inteligência artificial e para recomendações mais contextualizadas, combinando informações de investimento com outras informações financeiras compartilhadas pelo cliente.
Gustavo Bresler, CPO da Iniciador, também vê o uso se deslocando da simples consolidação para jornadas mais amplas. Segundo ele, dois casos já aparecem com frequência entre clientes da empresa: a facilitação da abertura de contas de investimento, usando dados cadastrais que já passaram por processos de KYC em outras instituições, e o compartilhamento em tempo real de posições para gestão patrimonial e identificação de oportunidades.
Bresler cita o caso de um cliente que conecta contas de diferentes instituições para consolidar investimentos, apoiar a gestão da carteira com um assessor humano e identificar produtos que façam sentido para o perfil do usuário. A mesma infraestrutura pode reduzir fricção no onboarding, já que boa parte dos dados cadastrais necessários para a abertura de uma conta de investimentos pode ser reaproveitada após consentimento.
O executivo afirma que a postura das instituições também mudou. “Inicialmente a gente via uma resistência maior e até corretoras tentando desincentivar os seus usuários a compartilhar dados, mas hoje a gente vê o contrário”, diz. Segundo ele, as empresas passaram a enxergar o Open Finance como ferramenta para obter uma visão de 360 graus do cliente e melhorar a oferta de investimentos.
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O dado ainda é o gargalo
É justamente quando o uso sai da consolidação e entra na recomendação de investimentos que aparecem as maiores divergências sobre a maturidade do sistema.
Guilherme Assis, CEO do Gorila, afirma que a empresa acompanha o Open Investment, mas ainda prefere outras fontes para consolidar e analisar carteiras. Hoje, a principal fonte considerada confiável pela fintech é a B3, complementada por integrações diretas, extratos e outros documentos. Para o Gorila, a qualidade do dado regulado ainda não é uniforme o suficiente para substituir essas fontes em usos que exigem precisão elevada.
“O Open Finance ainda é uma terra prometida para isso”, diz Assis, ao falar do uso por assessores, consultores e gestores. “A gente ainda acha que puxar dados diretamente das instituições […] traz um dado de muito mais confiança, muito mais qualidade para você poder fazer essa análise e entregar essa experiência para o cliente.”
O problema, segundo ele, não é apenas regulatório. Investimentos são tecnicamente mais complexos do que dados de conta-corrente ou cartão. Um CDB pode ter datas, curvas, amortizações e eventos diferentes; fundos, ações, derivativos e outros produtos exigem campos e sistemas próprios. Para expor tudo de maneira padronizada, os bancos precisam reunir informações que muitas vezes estão espalhadas em sistemas legados distintos.
Assis afirma que algumas instituições conseguem fornecer dados de melhor qualidade do que outras e atribui parte da diferença à arquitetura tecnológica de cada banco. “Não é uniforme em relação às instituições”, diz. Na avaliação dele, o sistema avançou, mas ainda há um caminho relevante para que o Open Investment se torne a fonte prioritária de dados em análises e recomendações.
A visão do Bradesco é menos crítica. Heitor Bernardes, responsável pela frente de tecnologia do Open Finance no banco, afirma que o dado disponível já é suficiente para diagnósticos e para os casos de uso atuais. O desafio estaria migrando da qualidade básica para a profundidade de cobertura entre diferentes famílias de produtos.
Segundo Bernardes, renda fixa já está relativamente bem atendida, enquanto produtos mais estruturados e previdência ainda têm espaço para evolução. “Acho que a gente está saindo dessa questão do quesito qualidade e entrando nessa profundidade de produtos”, afirma.
A Associação Open Finance também diz que a qualidade vem melhorando. O índice médio de maturidade técnica das instituições já superou a nota 7, segundo a entidade, e um novo painel de acompanhamento por produto foi lançado em agosto. Ao mesmo tempo, a própria Associação reconhece que informações adicionais podem ampliar o uso em wealth management, entre elas custo histórico ou fiscal, preço médio de aquisição, lotes individuais, rentabilidade histórica, benchmarks, encargos, características tributárias, liquidez, classificação de risco e exposição.
Portabilidade e próxima etapa
A evolução desses dados está ligada a outra frente que pode mudar a utilidade econômica do Open Investment: a iniciação de portabilidade de investimentos via Open Finance, na agenda do Banco Central. Essa funcionalidade, ainda pendente, é distinta da portabilidade regulada pela CVM: a Resolução CVM 210 entrou em vigor em 2 de janeiro de 2026, e a própria autarquia enquadra as Resoluções 209 e 210 como materialização de parte do Open Capital Markets. A Associação afirma que o regulador tem sinalizado interesse em priorizar a habilitação da iniciação de portabilidade via Open Finance em um horizonte visível, enquanto o mercado discute quais informações e padrões precisam ser aprofundados.
Bresler também coloca a portabilidade entre os próximos passos. Na avaliação dele, o processo ainda é difícil e não oferece a mesma padronização e conveniência que o Open Finance já trouxe para outras jornadas. O executivo defende ainda maior integração entre Banco Central, CVM e Anbima para ampliar as possibilidades do Open Investment.
No Bradesco, Cavagnoli afirma que a agenda com o Banco Central tem sido “muito positiva” e avalia que o ritmo de desenvolvimento está adequado. Para ele, o avanço deve privilegiar profundidade e consolidação dos casos antes da abertura simultânea de muitas novas frentes.
“Não é a quantidade de coisas, mas a completude do que você faz. É melhor você ter uma coisa feita 100% do que dez a 10%”, afirma.
A discussão resume o estágio atual do Open Investment. A infraestrutura saiu do papel, o número de participantes aumentou e as chamadas às APIs mostram que bancos e fintechs estão consumindo os dados. Também há usos concretos em consolidação patrimonial, onboarding, gestão financeira e oferta personalizada. O passo seguinte é demonstrar que esses casos conseguem ganhar escala e, principalmente, que a padronização é suficientemente profunda para transformar o compartilhamento de dados em gestão e recomendação de investimentos com confiança.
Para Jamile, o interesse já aparece no volume, mesmo que o caso capaz de simbolizar essa transformação ainda não tenha surgido. Para Assis, a promessa continua à frente da qualidade necessária para aplicações mais sensíveis. Entre as duas leituras, o Open Investment chega aos três anos menos como um projeto parado e mais como uma infraestrutura que ainda precisa provar quanto valor consegue extrair dos dados que já aprendeu a transportar.