O que os líderes do wealth vão acompanhar na Expert XP 2026
A Expert XP 2026 acontece de 23 a 25 de julho, no São Paulo Expo, e volta com o peso de sempre: a grade que este ano reúne de Janet Yellen e Niall Ferguson a Mike Pompeo, e um público concentrado que faz da semana o maior ponto de encontro do mercado de investimentos brasileiro. Para quem trabalha com gestão de patrimônio, são também três dias de teses declaradas.
Antes de o evento começar, o Gorila ouviu quatro líderes de family offices e consultorias com uma pergunta simples: o que vale acompanhar? Pedimos que respondessem a três questões — o que mais querem ver, qual tema deve dominar as conversas e qual discussão ainda falta. Nas duas primeiras, as respostas convergem para o mesmo lugar: o macro e a eleição. É na terceira que elas voltam a se encontrar, mas em torno de algo que, segundo eles, os palcos ainda subatendem: o ofício do planejamento e a relação com o cliente.
No radar: dos pesos-pesados globais ao propósito
Os grandes nomes internacionais puxam a atenção de quem aloca com horizonte longo. Caio Teruel, portfolio manager da CIMO Family Office, cita Niall Ferguson e Janet Yellen como os dois lados de uma mesma moeda. “O Ferguson tem esse olhar histórico e geopolítico que combina bastante com o horizonte de longo prazo com que a gente pensa alocação na CIMO. A Yellen é o outro lado, uma leitura mais concreta sobre política monetária americana”, diz. Ele também vai acompanhar de perto o que se falar sobre IA e ganhos de produtividade, um debate que, para ele, ainda oscila entre o hype e o ceticismo.
Evelise Kowalczyk, diretora de operações no Grupo Fractal, lê Ferguson por outro ângulo. O que a atrai é o conceito de “multi modelo”, a convivência entre consultoria, assessoria e gestão num mesmo ecossistema, que o Fractal opera há mais de dez anos e que ela reconhece na narrativa do historiador sobre “sistemas que sobrevivem quando diferentes agentes cooperam em vez de se sabotarem”. Por anos, diz, o mercado tratou esses formatos como trincheiras opostas; agora começa a emergir uma visão mais madura. “Não se trata mais de modelo A ou B, mas de desenhar jornadas mais coerentes e sofisticadas para o investidor”, afirma. “A discussão deixa de ser entre players e passa a ser contra a mediocridade do serviço”.
Felipe Bichara, sócio e diretor da Faros MFO, aposta no painel “O mundo mudou. E o seu portfólio, deveria mudar?”, com Thiago Ferreira, da Vanguard, e Cesar Florido, da XP, e vê na conversa com Mike Pompeo um complemento natural. “Entender os desdobramentos geopolíticos que moldam decisões de investimento é parte essencial do trabalho de um multi family office hoje”, afirma, lembrando que a alocação de um MFO já não para nas fronteiras do Brasil. Bichara também destaca João Fonseca: aos 19 anos, diz, o tenista deve inspirar o público pela resiliência e coragem diante da pressão de um esporte de alto nível.
É pelo mesmo fio do esporte que Marcus Prado, diretor de produtos e serviços financeiros no Clube do Valor, escolhe seu painel: a apresentação de André Agassi. Prado leu a autobiografia do tenista anos atrás e a guarda como uma das melhores que já pegou. O que o fisga na história é o paradoxo: Agassi se tornou um dos maiores de todos os tempos mesmo odiando o tênis, numa carreira cujo propósito, por muito tempo, foi do pai, não dele. Depois de despencar no ranking a ponto de dizer que tinha vergonha de estar em quadra, reencontrou um porquê próprio, voltou a gostar do jogo e voltou a ganhar Grand Slams. “Um resultado só no talento não é sustentável”, resume Prado, uma lição que ele estende do atleta ao investidor e ao empresário: entender o que nos move e gostar do jogo que se está jogando.
Kowalczyk leva o mesmo fio adiante, agora pela ótica de quem também é atleta. Para ela, o mindset de alta performance aplicado aos negócios vem forte nesta edição. “Existe uma romantização do resultado e uma negligência dos processos que levam a eles”, diz, lembrando que por trás de um Grand Slam há anos de treino sem glamour e de fracasso antes do acerto.
Nem todo mundo aponta para o palco. Para João Arthur Almeida, CIO da Suno Consultoria, o maior ganho está fora dele: “o principal não é um painel ou uma palestra, mas sim a interação com outros membros do mercado”.
A aposta: eleição e o ruído macro
Se há consenso, é sobre o que vai dominar as conversas. A eleição de 2026 aparece em quase todas as respostas — quase sempre colada ao pacote macro de juros, fiscal e geopolítica.
“O preço dos ativos brasileiros já parece ser afetado, quase como uma função direta do cenário eleitoral. Prêmio de risco fiscal, curva de juros, dólar, tudo sofre alguma influência”, diz Teruel. E faz uma distinção entre o que se ouve no palco e o que se conversa no corredor: “Nos palcos acho que vai se falar muito de IA e guerra no ciclo global, mas nas conversas de corredor, entre alocadores, acho que a eleição tem um peso”.
Marcus Prado enxerga três fatores puxando as conversas: a trajetória de juros, a sustentabilidade fiscal e o cenário eleitoral, num mercado que fica reprecificando o risco a cada novo dado. Para ele, não é à toa que o evento trouxe nomes como Yellen e Ferguson, a leitura geopolítica, do preço das commodities e do Estreito de Ormuz à escalada recíproca de tarifas entre Brasil e Estados Unidos, também deve pesar sobre como o investidor decide alocar.
João Arthur concorda no diagnóstico, mas cobra mais. Para ele a eleição vai dominar, “apesar de que eu acho que deveríamos debater mais outros temas, como por exemplo sobre como solucionar a crise fiscal do país”.
Bichara costura o conjunto num único fio condutor: como as mudanças recentes — do ambiente macro aos impactos geopolíticos e tecnológicos — estão redesenhando a forma de construir e proteger patrimônio. Não dá mais para olhar um portfólio de forma estática, argumenta: “a gestão patrimonial precisa ser dinâmica, diversificada geograficamente e atenta a riscos que vão muito além do noticiário econômico local”.
Para Evelise Kowalczyk , o grande pano de fundo é a instabilidade global: “Geopolítica, fragmentação econômica, tensões ambientais e rearranjos de poder deixaram de ser ruído e passaram a ser variável central de muitas decisões”. É por isso, avalia, que a grade reúne de Yellen e Pompeo aos CEOs de JBS, Gerdau, Rede D’Or e Grupo Muffato. De um lado, quem faz a política econômica acontecer; de outro, empresas “feitas para durar” que vivem esse cenário no dia a dia.
O que falta: o negócio por trás da carteira
Bichara acredita que consultoria e wealth management mereciam mais espaço nas conversas. “Esse segmento tem sido um dos grandes propulsores de mudança no mercado de investimentos brasileiro nos últimos anos, puxando temas como planejamento sucessório, estruturação patrimonial e um atendimento mais próximo e personalizado para famílias com patrimônio complexo”, diz. Uma discussão que tem impacto direto em como o dinheiro das famílias brasileiras é protegido e planejado para as próximas gerações.
Marcus Prado vai na mesma direção ao falar da ausência de falta planejamento financeiro de verdade na grade do evento. O investidor, avalia, se prende ao ruído político e ao cenário macro a ponto de deixar que eles conduzam quase toda a decisão de alocação e esquece que o debate não deveria começar por qual ativo comprar. A carteira, para ele, é consequência de um plano com metas, prazos e necessidade de liquidez, não o ponto de partida. Em mercados mais maduros, como o americano, diz, o investidor já entendeu essa lógica.
João Arthur aperta no mesmo nervo, pelo ângulo do conflito de interesses: “Falta um debate honesto sobre como garantir alinhamento de interesses com os clientes nas alocações dos investimentos”.
Evelise puxa uma lacuna diferente: a inteligência artificial. Frequentadora dos grandes eventos do setor fora do Brasil, ela nota que a Expert traz, proporcionalmente, ainda pouco sobre IA na profundidade em que a tecnologia já é usada para gerar valor. “Aqui a IA ainda aparece mais como promessa do que como transformação concreta”, diz. O que ela gostaria de ver são mais exemplos práticos de quem já saiu do outro lado dessa novidade com valor real.
Para Teruel, a Expert impressiona em curadoria e escala, mas o modelo acaba favorecendo o consenso. Ele sente falta de mesas com teses realmente opostas defendidas com igual profundidade, como bull contra bear no Brasil, otimistas contra céticos. “O investidor sai mais bem servido de uma discordância bem argumentada do que de três painéis confirmando a mesma tese”, afirma.