IA de um lado, influencers do outro: qual o futuro do analista CNPI?

O avanço da inteligência artificial e a disputa por audiência com influenciadores sem certificação pressionam a profissão e exigem uma reinvenção dos analistas CNPI.
Foto de perfil do autor
PorEdnael Ferreira - 21/09/2026
5 min de leitura

Duas ameaças à profissão de analista de investimento atravessaram o 25º Congresso APIMEC Brasil, realizado em 16 e 17 de setembro no Teatro CIEE, em São Paulo. De um lado, a inteligência artificial, que já lê documentos complexos e produz relatórios. De outro, o influenciador financeiro sem certificação, que disputa a atenção do investidor sem responder às mesmas regras. Os dois debates abriram o evento e deram o tom dos dois dias.

A máquina que fez sumir o degrau de entrada

Carlos Daltozo, especialista de produto para a América Latina da Bridgewise, recuperou o teste clássico aplicado a qualquer relatório antes da publicação: qual a fonte, quais as premissas utilizadas e qual informação faria o analista mudar de opinião. No passado, quem não respondia às três não publicava. A régua, para ele, vale igual para a máquina, e o analista precisa saber quais bases a ferramenta acessa. Segundo Daltozo, o índice de alucinação de uma IA torna a checagem inseparável do uso. “A IA vem para potencializar o trabalho do analista, mas precisa ter o discernimento e a crítica para ver se aquelas informações são verídicas e transparentes”.

Fernando Galdi, superintendente do Bradesco Asset Management, deu a medida prática do limite. A gestora testa a ferramenta na análise de escrituras de debêntures, documentos que variam de poucas páginas a centenas. Quando o projeto começou, há cerca de dois anos, esbarrava em restrição técnica de volume. Hoje a ferramenta processa o documento inteiro, mas a alucinação persiste, sobretudo em números e em termos jurídicos. Daí a exigência que ele impõe antes de qualquer uso em produção: montar um gabarito e testar contra ele.

A plateia, formada em boa parte por analistas seniores, levou o debate para o emprego. Se a ferramenta entrega respostas generalistas e o júnior aprende a perguntar antes de aprender a duvidar, como se forma capacidade crítica. “Você não vai perder o emprego para uma máquina, mas certamente vai perder o emprego para alguém que sabe usar IA”, respondeu Galdi. “Goste ou não, está acontecendo, e precisamos saber nos adaptar”. Daltozo acrescentou que quem pretende entrar no mercado agora precisa de habilidades diferentes das exigidas cinco anos atrás.

Erik Frederico Oioli, sócio de mercado de capitais do VBSO Advogados, formulou o problema pelo lado de quem contrata. “Como você faz esse estagiário ganhar o cabelo branco?”, perguntou. Seu escritório mantém um único estagiário, porque o trabalho que justificava a vaga deixou de existir. A sucessão dentro das casas, segundo ele, precisa de resposta rápida.

O selo que o investidor não enxerga

O debate seguinte partiu de uma premissa incômoda para a categoria: todo analista é influenciador? A pergunta passou a ser quanto espaço existe para crescer dentro da certificação.

Leandro Martins, especialista da Me Poupe e influenciador do Inter, tratou o registro como piso. “A certificação é o mínimo que tem que ter. São regras importantes”. Ele apontou um problema de percepção na própria nomenclatura. Analista, no mercado de trabalho de forma geral, designa desde o cargo seguinte ao estágio até o profissional experiente, e o termo genérico esvazia o prestígio de quem passa pela prova. Martins defendeu um “rebranding” focado em valorizar o selo do profissional CNPI.

Luciana Seabra, fundadora e chefe de análise da Indê Investimentos, admitiu ter resistido ao rótulo de influenciadora e mudou de posição pelo alcance. A rede dá público, e público dá poder de pressão. Ela relatou o caso de uma convocação de assembleia de fundo que os cotistas não entendiam e sobre a qual perguntavam por mensagem direta. Luciana gravou um vídeo de cinco minutos com a discordância, a repercussão apareceu e a instituição financeira a procurou para conversar. “Quando a instituição se recusa ao diálogo, corre risco de imagem”. Esse espaço, segundo ela, será ocupado por quem faz front running e vende aposta caso o analista certificado não o reivindique.

Tiago Reis, presidente do conselho do Grupo Suno, deslocou o foco para os incentivos. “Eu não sinto que a sociedade valoriza tanto assim o CNPI”. Nas redes ganha quem chama mais atenção, e o código de conduta da APIMEC pede comunicação serena, de modo que o profissional regulado parte em desvantagem na disputa por alcance. “Hoje existem benefícios econômicos para estar fora”. Ele defendeu uma escalada da entidade, com convite para influenciadores tirarem a certificação caso comentam alguma infração, advertência em seguida e ação firme na reincidência. “Vamos consertar, mas não acho irracional a pessoa que teve essa atitude [de migrar para o mercado de influência]”. Reis também considerou simbólica a presença de influenciadores no palco da associação e sugeriu que a entidade aprenda com o marketing digital que eles dominam, para dar visibilidade à marca CNPI.

O conflito de interesses apareceu pela via do financiamento da análise. Reis afirmou preferir o modelo internacional e apontou que, no Brasil, o departamento de análise costuma ser subsidiado por outras áreas da instituição, como mesa de operações e banco de investimento, enquanto a Suno é remunerada pelo assinante. O investidor raramente sabe quem paga a conta. Os avisos existem, mas em letra miúda e sem identificar a área.

Seabra respondeu à queda de certificados pela margem com um argumento de posicionamento. Tratar a rede como oportunidade, e não como adversária, e cobrar transparência sobre quem remunera o analista. Ela marcou a diferença em relação ao conteúdo de alcance rápido: promessa de retorno funciona no algoritmo, sustentar análise sem entrar nas tendências do momento é o desafio de quem quer crescer sem abrir mão do discurso. “A gente não é uma empresa de marketing”.

A pergunta final ficou sem resposta consensual e partiu de Ricardo Tadeu Martins, presidente da APIMEC Brasil, que estava na plateia: como defender o profissional sério da turma sem caráter.

Os demais debates trataram de qualidade da informação, alocação e cenário. A programação ainda percorreu classes de ativos, com renda fixa, fundos imobiliários, ações, criptoativos e ETFs em painel único, o papel dos bancos de desenvolvimento e das ofertas públicas de pequenas e médias empresas no crescimento regional, integração entre finanças e sustentabilidade e, no encerramento, o cenário macroeconômico diante do novo governo. 

Compartilhe

Vá direto ao assunto

Inscreva-se na nossa newsletter e receba nossa curadoria com as últimas notícias, inovações e tendências que estão moldando o mercado de investimentos no Brasil.
Ao enviar o formulário, você declara que conhece os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade.

Compartilhe

Vá direto ao assunto

Inscreva-se na nossa newsletter e receba nossa curadoria com as últimas notícias, inovações e tendências que estão moldando o mercado de investimentos no Brasil.
Ao enviar o formulário, você declara que conhece os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade.