FEBRABAN TECH: da IA ao Open finance, a estrutura está pronta. Mas quais os próximos passos?
O maior evento de tecnologia do setor financeiro brasileiro ocupou 42 mil metros quadrados no Distrito Anhembi e recebeu 70 mil visitas entre 24 e 26 de agosto para anunciar, em painel após painel, que a fase de obra terminou. O Banco Central declarou vencido o desafio de erguer o Open Finance, o Santander informou que o ecossistema processa 10 bilhões de chamadas por semana e a pesquisa anual da Febraban mostrou que os bancos vão gastar R$ 50,4 bilhões em tecnologia neste ano.
O que o setor ainda não conseguiu dizer, e admitiu isso no palco, é o que fazer com tudo aquilo. Nas sessões da programação, a resposta que apareceu aponta para crédito, pagamento e consumo, e pouca coisa das treze trilhas temáticas mencionou investimento, patrimônio ou assessoria.
O Open Finance declarou vitória e mudou de assunto
Na tarde de segunda-feira, a consultora do Banco Central Janaína Attie abriu o painel de Open Finance com um balanço curto. “Não é mais uma questão de colocar a estrutura de pé, esse desafio a gente já venceu”, disse. Segundo ela, o problema no início do programa era a interoperabilidade, ou seja, fazer as instituições conseguirem se comunicar entre si. Como esse obstáculo saiu do caminho, a prioridade passou a ser a qualidade daquilo que circula: dados transitados, produtos ofertados e desempenho dos participantes. Attie acrescentou que sensibilizar as empresas sobre essa agenda também virou tarefa do regulador, e definiu o sistema como infraestrutura perene, sem começo, meio e fim, que vai evoluir junto com o próprio sistema financeiro.
Logo depois, Leandro Pupe Nóbrega, head de Data & AI do Santander Brasil, deu a dimensão do que foi construído. São 10 bilhões de chamadas por semana no ecossistema, volume que, para ele, encerra a discussão sobre adoção e desloca o debate para governança e segurança.
Poucas cadeiras adiante, no entanto, Marcelo Gomes, diretor de Clientes Varejo do Banco do Brasil, formulou o que sobrou de pendência. “Isso precisa se tornar bem tangível e material, visível para os clientes”, disse. Ele listou três desafios em ordem de importância. O primeiro é confiança, porque nenhuma relação se sustenta sem transparência sobre o uso do dado. O segundo é disponibilidade e confiabilidade da informação, já que o sistema só se fortalece se o dado efetivamente fluir. O terceiro, e é nele que a conversa emperra, é transformar tudo aquilo em solução tangível.
Ana Carla Abrão, CEO da Associação Open Finance Brasil, resumiu a posição do país no tema com uma frase: “Somos referência global”. Para ela, estar no Open Finance hoje é uma forma de servir melhor o cliente, e do lado do cliente é uma forma de se servir melhor das oportunidades financeiras. Ainda assim, ao apontar o maior desafio da agenda, ela ficou no mesmo terreno da colega do Banco Central: garantir que tudo funcione com segurança, transparência e qualidade.
Na inteligência artificial, o mesmo padrão e um número contido
O congresso deu à IA o tema da edição, “Agentes Inteligentes, liderança humana”, e o número divulgado durante o evento conta uma história mais comedida do que o título sugere. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, feita pela Deloitte e apresentada na terça-feira, os bancos brasileiros pretendem destinar cerca de R$ 2,97 bilhões a inteligência artificial, analytics e big data neste ano. O valor representa alta de 8% sobre os R$ 2,76 bilhões de 2025 e cabe dentro de um orçamento tecnológico total de R$ 50,4 bilhões. Para efeito de comparação, a migração para nuvem cresce 30% no mesmo período e chega a R$ 3,9 bilhões, o que coloca a infraestrutura de dados à frente da própria IA na fila do orçamento.
Rodrigo Mulinari, diretor responsável pela pesquisa, leu o crescimento de um dígito como sinal de amadurecimento. O primeiro momento, segundo ele, foi quantitativo, quando as instituições “colocaram muitos modelos na rua”. A etapa atual consiste em avaliar quais deles fazem sentido e começar a otimizar. Mulinari mencionou ainda a preocupação com o custo dos tokens e a expectativa de que modelos abertos ajudem a puxar esse preço para baixo, tema que voltaria a aparecer em outro painel do evento.
As aplicações de agentes de IA mapeadas pela pesquisa ficam todas do lado de dentro da casa. Automação de processos internos aparece em 76% das instituições, atendimento por chatbot e voicebot em 71%, geração de relatórios e documentos em outros 71%, conteúdo de marketing em 53% e suporte a equipes em 53%. Coerentemente, o principal benefício percebido, citado por 92% dos bancos, é ganho de velocidade na execução de tarefas rotineiras.
Onde a automação para e por quê
A fronteira dessa expansão ficou desenhada em dois momentos distintos da programação. No painel de abertura, Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, afirmou que ética, reputação e responsabilidade institucional não podem ser transferidas para o algoritmo, e lembrou que “quem responde criminalmente, civilmente, são as pessoas”. Bárbara Correia dos Santos, AI & Data Privacy Manager do Itaú, tinha traçado a mesma linha em termos operacionais. Resumir reunião e traduzir texto são coisas que a IA faz bem, argumentou, enquanto colocar a IA para conversar com o cliente é um risco de outra ordem. A esteira de governança, na descrição dela, existe justamente para separar uma coisa da outra e traduzir a diferença em métrica e observabilidade.
Luciana Sammarco Rosa e Ruijter, Superintendente Sênior do Bradesco, colocou o problema no tempo. “A governança da IA vai ter que evoluir conforme formos dando mais autonomia aos modelos”, disse, no painel sobre limites e responsabilidade no uso de dados. Na avaliação dela, a função das pessoas permanece por longo tempo, com destaque para engenheiros de prompt e curadores.
No mesmo painel, Alessandra de Almeida Camargos, Gerente de Normas e Relacionamento da Febraban, foi perguntada sobre como construir regras que protejam o consumidor sem inviabilizar a personalização. Ela respondeu que a transparência da informação veio para equilibrar essa assimetria e que a personalização é benéfica desde que amparada por política de privacidade transparente, citando a autorregulação bancária como parte da resposta. A antropóloga Hilaine Yaccoub, também na mesa, lembrou que os modelos partem de crenças e sistemas de valor e, por isso, invariavelmente erram.
Cem vezes mais em ferramenta do que em gente
A pesquisa da Febraban traz um contraste que ajuda a entender onde o esforço está sendo colocado. Para treinamento e capacitação de profissionais em IA e IA generativa, os bancos preveem R$ 29,4 milhões neste ano, alta de 31%. É cerca de um centésimo do que vai para a tecnologia em si. No ano anterior, o total investido em treinamento de tecnologia somou R$ 100,4 milhões, com 226,1 mil profissionais treinados.
A lista dos cinco perfis de tecnologia mais demandados pelos bancos em 2025 reforça o ponto: desenvolvedor de software, engenheiro de IA, engenheiro de dados, arquiteto corporativo e engenheiro de DevOps. Todos são de construção de sistema.
Ana Carla Guimarães, Diretora de Recrutamento de Executivos da Robert Half, descreveu no painel sobre redesenho do trabalho um perfil diferente desses. “Percebemos uma demanda muito forte das empresas por um perfil orquestrador. Um perfil que vai conseguir liderar um time e fazer com que essas pessoas consigam, com o impacto da IA, contribuir pra rentabilidade do negócio”, disse. Questionada sobre quem perde espaço no processo, respondeu que não existe candidato ruim, existe candidato para cada cadeira, e apontou educação continuada como o divisor entre quem avança e quem fica.
Do lado das instituições, o discurso é de conduzir a transição por dentro. Mariana Gomide, Superintendente de RH do Itaú Unibanco, contou que a decisão sobre o que virar agente autônomo deixou de ser exclusiva da área de tecnologia e passou a envolver as áreas de negócio. A pergunta que orienta o processo, segundo ela, é para que se quer o agente e qual serviço ele vai entregar, porque é dessa resposta que decorre o grau de autonomia concedido. Na mesma direção, Roseli Pereira de Oliveira, Superintendente de Operações do banco, disse que os casos com uso de IA generativa cresceram mais de 88% e citou o AcademIA, programa interno de formação, como resposta ao desaparecimento dos processos repetitivos.
Renan Correia Martino, diretor de Clientes, Canais Inteligentes e Inovação da Caixa, tratou do custo pelo lado da arquitetura. O banco construiu um data lake com mais de 500 produtos de dados qualificados e adotou como regra verificar, antes de criar qualquer produto novo, se alguém já fez o mesmo. Reuso e fonte única de dado, na descrição dele, são o que segura a conta no fim do mês.
Quando o evento falou de patrimônio
Na Arena Fintech, que a palavra wealth apareceu na programação. Guilherme Assis, CEO do Gorila, plataforma de consolidação de dados de investimento, descreveu o efeito da tecnologia sobre a indústria de gestão de patrimônio em termos de narrativa. “A grande transformação na indústria de wealth é storytelling, é você contar uma história e esses modelos estão permitindo isso acontecer”, disse. Segundo ele, o setor sempre teve muito dado e dificuldade de extrair valor dele, e a tecnologia atual começa a resolver essa distância. Assis defendeu ainda que a prioridade é ser uma empresa data-first antes de ser AI-first, porque sem dado estruturado os modelos não conversam.
Ele também apontou um efeito de distribuição que ecoa a fala da Robert Half. Dentro da própria empresa, observou, os desenvolvedores muito bons ficaram melhores, enquanto os mais novos extraem menos valor das mesmas ferramentas. A partir dessa observação, projetou o mesmo movimento para o mercado de advisory, com o advisor operando como copiloto e quem já é bom ficando cada vez melhor. Sobre arquitetura, defendeu ser agnóstico a modelo, apontou que os modelos abertos estão perto dos laboratórios de fronteira e previu deflação no custo de token, diagnóstico que coincide com o do diretor da pesquisa da Febraban.
Para onde apontam os casos de uso
A aparição da discussão de wealth management foi pontual, e o levantamento da programação mostra o quanto. Em 246 sessões distribuídas por três dias e treze trilhas temáticas, nenhum título ou trilha do FEBRABAN TECH 2026 mencionou investimento, alocação, patrimônio, wealth, private banking, assessor, gestora, fundo, previdência, corretora, renda fixa, renda variável, suitability, family office, ANBIMA ou CVM. A varredura desses dezessete termos na programação oficial completa retorna zero ocorrências. As três aproximações que aparecem tratam de carteira digital, custódia de criptoativo e portfólio de produto bancário.
A ausência fica mais nítida quando o próprio setor escolhe os exemplos. Perguntados no painel de Open Finance sobre quais novos serviços vão gerar valor no ecossistema, os executivos ofereceram dois conjuntos de resposta. No Nubank, segundo Eduardo Lopes, Diretor Sênior de Políticas Públicas, o ganho está em ajudar na gestão da vida financeira, que ficou mais complexa, com entrega do perfil de gastos em cada instituição. No Banco do Brasil, Marcelo Gomes citou concessão de crédito mais consciente, educação financeira e antecipação de necessidade do cliente, e apontou o nível de endividamento do país como razão para priorizar essa frente.
Os números da pesquisa confirmam a direção declarada. Para 92% dos bancos, o Open Finance representa oportunidade de acesso a dados financeiros. Para 85%, serve para aprimorar campanhas direcionadas aos clientes. Para 69%, para ser mais competitivo nas ofertas. Gerir a carteira de terceiro fica fora da lista de finalidades apontadas pelas instituições.
Onde os bancos chegam mais perto disso é na funcionalidade de agregação financeira, oferecida por 33% das instituições. O número de usuários cresceu 31% em 2025 e alcançou 2,15 milhões de clientes, em um país com mais de duzentos milhões de contas.
Ao fim dos três dias, o retrato que o evento entrega é de uma infraestrutura de dados concluída e desenhada para oferta, crédito e consumo, e é isso que os participantes dizem quando são perguntados diretamente. A relação de gerir patrimônio ficou fora do desenho, do palco e da lista de casos de uso.